População humana estabilizará em 2200
Da revolução agrícola até a ascensão do Império Romano, a população cresceu devagar – menos de 0,10% ao ano –, alcançando aproximadamente 300 milhões de habitantes por volta do ano 1 d.C. A “Peste Negra”, no século 14, matou pelo menos 75 milhões.
Até 1650, a população mundial havia crescido para aproximadamente 500 milhões. Em meados de 1800, com os avanços da agricultura e a melhoria do saneamento básico a população dobrou, ultrapassando a marca de um mil milhões de habitantes. E em 2002, a população do planeta alcançou 6,2 mil milhões de pessoas.
Para o ano de 2050, a ONU projecta uma variação entre 7,3 mil milhões e 10,7 mil milhões de habitantes. A população mundial irá se estabilizar por volta de 2.200, em mais ou menos 10 mil milhões de habitantes (curiosamente um número inferior às pessoas que já viveram na Terra ao longo de toda a história).
EVOLUÇÃO INTEGRAL (curso)
A alma
Parece, porém, que aquilo a que chamamos alma é algo que não tem nada a ver com isso pois está mais próximo do "proto-si" (de A.Damásio), na profundidade do inconsciente, inacessível a qualquer tentativa de observação. Por iso, a alma presta-se a inúmeras confuções conceptuais. Muitas vezes chamamos de alma ao "carácter" da pessoa (que é outra coisa). Outros confundem com a "mente" (que também é outra coisa). Outros com as emoções de fundo (que também não são a alma).
As primeiras informações que temos sobre suposições acerca da alma vêm dos filósofos gregos onde se destaca Platão que disse que a construção da alma é uma obra filosófica. E que a flosofia consiste em cuidar da alma.
A ciência actual - na melhor das hipóteses - considera a alma um subproduto do cérebro. É ele o seu autor! A verdade é que a alma - seja por via da filosofia, da poesia ou da simples crença - é uma realidade humana, isto é, faz parte do nosso universo mental, da nossa visão do mundo e do nosso mundo interpessoal. Ninguém sabe definir o que é a alma mas toda a gente entende o que se quer dizer com isso. Mesmo que ela não seja mais do que uma maneira de nos referirmos ao mundo interior de cada um.
Carl Jung falou sobre a alma mas foi James Hillman, em 1975, quem retomou mais recentemente o tema no livro "re-visioning psychology" onde afirma que "aquilo que designamos por alma é uma perspectiva e não uma coisa ou substância; é uma forma de ver o mundo e não um mundo em si mesmo".
Uma das características da alma segundo, por exemplo, os católicos, é a sua imortalidade. Platão assim pensava e isso marcou todo o percurso humano até hoje. A alma, segundo essa visão, não pertence ao corpo; separa-se dele quando o corpo morre (isto é uma visão dualista mas também....redutora). No Renascimento, a alma era uma espécie de substância que resistia ao tempo e à morte. Era eterna e podia reencarnar noutro corpo. Há os seus defensores e não são poucos.
Para os psicólogos transpessoais a alma está pejada de forças e imagens que reflectem o sub-pessoal e o supra-pessoal. E assim sendo, segundo o filósofo, Michael Grosso, "a alma é o teatro multifacetado onde o transpessoal (o transcendente) surge e é escutado e onde deambulam entes estranhos e vagabundos mas também velhos amigos e familiares".
E então a alma tem como essência o mundo da imaginação. Sem isso não há alma. Veja-se que muitas curas de "doenças da alma" são feitas através de xamãs e psicoterapeutas que usam a imaginação, a sugestão e a visualização criativa para chegar à alma. Aliás, ela manifesta-se - segundo outros autores - através dos sonhos (lá voltamos à questão do inconsciente). Os sonhos são, para eles - a mais pura manifestação da alma pois o Ego, que não os controla, deixa que ela se manifeste espontânea e livre de inibições.
Finalmente, também há quem, na mesma linha de pensamento, veja a alma como um auto-conhecimento experimental. Se assim for, levanta-se uma questão (filosófica?): sermos donos de nós próprios - das nossas almas - é um empreendimento "perigoso", diria, desafiante nos tempo que correm (em que a massificação faz diluir a nossa própria identidade pois somos nomeados e reconhecidos como "números", anónimos cidadãos que fazem parte de e que justificam estatísticas). A própria educação dita moderna não veícula a ideia de uma alma. Como escreveu John Keats, "podemos conter inteligencias mas não adquirimos identidade enquanto não formos, pessoalmente, nós próprios".
Citando Alfred Korzybski, autor de "Ciência e Sanidade", "não é a palavra que importa" mas o que ela traduz. Em rigor, a alma não será uma noção universal; parece-se mais com um sentimento (sim, universal), algo que se sente existir sem que se consiga, porém, ver e descrever. E, mesmo assim, existem diferentes versões do que a alma possa significar encontrando-se interpretações (e sentimentos) distintos de cultura para cultura.
Talvez por isso (e quer acreditemos ou não na existência da alma) haja uma desumanização actual da Humanidade. Deixámos de ter uma visão poética da vida. Passámos a ser conduzidos pelo pragmatismo e pelo reducionismo científico. E pela contas, pelas compras, pelos Natais consumistas.
Nelson S Lima
Dinâmica da Espiral
A psicologia integral ambiciona entender a pessoa humana de forma global interessando-se pelas suas várias dimensões: biológica, mental, social e espiritual.
A psicologia, no seu esforço de adoptar um atitude científica respeitável, perdeu a visão da essência do que estava inicialmente à procura. Foi estudando de forma separada os comportamentos, emoções, motivações, impulsos e a inteligência como se funcionassem de maneira autónoma.
Na verdade, a psicologia surgiu como uma ramo da filosofia para estudar a psique. Como afirma Ken Wilber, as raizes da psicologia assentam nas profundezas da alma e do espírito humnano. A psicologia integral, não sendo um regresso passado, apresenta-se num estádio avançado da psicologia humanista.
Autores como Ken Wilber e Viktor Frankl propoem então uma visão integral da disciplina. Ambos esforçaram-se por integrar as diferenes visões que existem na psicologia ambicionando criar um todo harmonioso do conhecimento sobre o ser humano. Assim, a psicologia integral procura ter em conta todos os factores em jogo na realidade da pessoa humana: o somático, o psíquico, o espiritual e os aspectos culturais e sociais.Para Frankl, o espiritual seria a realidade mais autêntica da pessoa e que põe em jogo a liberdade e a responsabilidade pessoal. Wilber, por sua vez, admite a possibilidade de integrar os diferentes níveis da psique desde o subconsciente ao autoconsciente e daí para o supraconsciente ou dimensão espiritual para assim abarcar de forma o mais completa possível a consciência. A harmonização das diferentes dimensões é a única maneira de permitir o desenvolvimento equilibrado da pessoa.
Ken Wilber consegue descrever a realidade humana em 4 quadrantes: a que mostra o Eu Individual, a que revela o Exterior Individual (os comportamentos observados), o que revela o Nós (a cultura da nossa vivência com o mundo) e o Exterior Colectivo (os comportamentos observados desde o exterior para o conjunto da humanidade). A evolução se dará então através de diferentes níveis que vão atravessando o Eu e as suas subpersonalidades e dimensões (moral, afectivo, identidade, cognição, criatividade, etc., e que podem seguir percursos independentes).Existirão então 9 níveis possíveis de evolução havendo 3 níveis prévios anteriores à formação da personalidade e 3 níveis posteriores à personalidade, por conseguinte, transpessoais. Em cada um dos níveis de desenvolvimento, o ser humano tem uma visão diferente do mundo e que se vai aprofundando e ampliando à medida que a pessoa evolui.
O conceito de Kosmos
Na Psicologia Integral novos conceitos devem ser entendidos. Um deles é o Kosmos, com K e não com C. Este conceito difere da visão científica do cosmos. Onde o cosmos é por definição uma realidade física, o Kosmos refere-se a uma visão de mundo integral e que reconhece não apenas a matéria, mas também a vida, a mente, a alma e o espírito. Significa também tudo o que existe, tenha ou não sido ainda descoberto.
Num sentido real, a visão de mundo kósmica oferece-nos então um mapa do nosso próprio mundo interior – o mundo que não pode ser observado com os sentidos físicos.
A MATRIZ MENTAL DO MUNDO
Actuando num clima de instabilidade/complexidade/incerteza, os líderes são forçados a trabalhar num quadro mental diferente daquele que os estados de estabilidade, coerência e coesão requerem.
No mundo actual, as organizações humanas funcionam num estado de instabilidade dita limitada. Esta instabilidade é agora uma propriedade fundamental dos sistemas de negócios e governação bem sucedidos. Ela é condição-chave para provocar a inovação, ou seja, a procura de ordem a partir do caos.
Foi já em 1992 que o conhecido autor Ralph Stacey escreveu que a ciência da complexidade dos sistemas dinâmicos proporciona um modelo mental totalmente diferente para interpretar o comportamento de negócios e projectar acções de gestão inovadoras (in Managing Chaos).
O mundo da governação política é cada vez mais ditado por um feedback interactivo contínuo (semelhante ao dos jogos competitivos verdadeiros), com muitos aspectos instáveis.
Neste tipo de cenários caóticos, os líderes não podem confundir êxito com simples estabilidade (esta é sempre temporária e pode ser enganadora). A governação é feita cada vez mais à vista desarmada mas apoiada com o máximo de dados e informações provenientes de diversos lados. Assim, diz Stacey, "adoptar uma perspectiva de sistemas dinâmicos leva a uma resposta diferente (do equilíbrio estável próprio de épocas anteriores). (...) que reconhece a importância da contradição e da tensão criativa".
A aprendizagem torna-se então numa necessidade imperativa. Os governantes têm de abandonar velhas crenças, procedimentos e talvez modelos mentais já esgotados. A aprendizagem de um novo modelo mental é complexa, pode ser entendida como algo ameaçador, é geradora de ansiedade e toca, por vezes, em características pessoais profundas.
OS FEITICEIROS DA ESPIRAL
Da formação de um líder devem hoje constar conhecimentos cruciais sobre os diferentes tipos de mentes com os quais trabalha. As pessoas possuem sistemas de ideias, crenças e valores que podem ser profundamente diferentes de indivíduo para indivíduo mesmo que mergulhados na mesma cultura e na mesma sociedade.
A diferença encontra-se nos "estádios distintos de desenvolvimento da consciência" os quais fazem com que uma pessoa possa estar num patamar de desenvolvimento totalmente diferente até do da sua esposa fazendo com que subtilmente (ou de forma mais vigorosa) ocorram conflitos, incompreensões e desentendimentos, muitas vezes reclamados como "tu não entendes o que eu quero dizer", na verdade significando que "tu não entendes a minha mente e o que eu PENSO sobre aquilo que, afinal, nos separa"!
É algo mais profundo do que acontece com as vulgares "diferenças de opinião" ou "níveis de cultura e saber". Tem a ver muito mais com a "consciência profunda" onde se alojam a visão do mundo, os sistemas particulares de valores, o nível de existência psicológica e as estruturas de ideias e formas de pensar proprias de cada sujeito.
Baseados no trabalho pioneiro de Clare Graves, Beck e Cowan propuseram um modelo de desenvolvimento humano que, devido à sua configu-ração, recebeu o nome de Dinâmica da Espiral. Este modelo tem sido validado e não refutado por diferentes pesquisas. Segundo este modelo, o ser humano nasce no estádio 1 e pode evoluir até ao estádio 9 dependendo essa evolução de múltiplos factores psicológicos, culturais e sociais. Escreveu Graves: “é um processo espiralado, emergente, oscilante, marcado por uma progressiva subordinação de sistemas de comportamento mais antigos e de ordem inferior a sistemas mais recentes, de ordem superior, que ocorre à medida que os problemas existenciais de um indivíduo se alteram“.
A existência humana, segundo Graves, contem numerosos, provavelmente infinitos, modos de ser, enraizados precisamente nos imensos potenciais do cérebro hierarquicamente estruturado da humanidade. Mas a dinâmica humana faz com que diferentes indivíduos estejam a viver em diferentes níveis de percepção, visões do mundo e estilos de vida. Num mesmo país, numa mesma rua, encontramos indivíduos cujo estádio de desenvolvimento se distingue dos seus vizinhos, se bem que a tendência seja para se agruparem em função da partilha dos mesmos sistemas de crenças, valores e níveis de existência.
Assim, cada um dos sucessivos estádios, ondas ou níveis de existência é uma condição pela qual as pessoas passam no seu percurso rumo a estádios de existência distintos, com psicologias próprias e ajustadas a cada nível: sentimentos, motivações, ética e valores, bioquímica, grau de activação neurológica, sistema de aprendizagem, sistemas de crenças, conceito de saúde mental, conceitos e preferências relativamente a negócios, educação, economia e teoria e prática políticas (Graves,1984).
Beck e Cowan desenvolveram então o conceito de vMEME tendo como ponto de partida o termo “meme” proposto por Mihaly Csikszentmihaly em 1993. Um vMEME é um meta-meme, isto é, um princípio organizador da existência humana que actua nas nossas mentes através de crenças, estilos de vida, tendências de linguagem, normas culturais, formas de arte, expressões religiosas, modelos económicos, etc.
Os vMEME codificam instruções para as nossas perspectivas do mundo, as suposições de como tudo funciona e a fundamentação lógica para as decisões que tomamos. Os vMEME representam as influências ambientais (culturais, sociais, educacionais, etc) que moldam não apenas as nossas mentes como as próprias células do cérebro. Eles circulam profundamente nos sistemas humanos e pulsam no centro das escolhas e da inteligência de cada indivíduo. São um produto da interacção do equipamento nos nossos sistemas nervosos com o ambiente e as condições de existência (onde se destacam o tempo, o lugar, os desafios e as circunstâncias) que enfrentamos.
Os vMEMES actuam a três níveis distintos: indivíduos (modelando as suas vidas e os seus valores, da sobrevivência mais básica no aldeão global até ao mais inacessível pensador); as organizações (determinando o seu sucesso ou o seu fracasso no mercado competitivo); e as sociedades (locais ou nacionais) que seguem modelos de existência dependentes de vMEMES com diferentes sentidos (democrático, conservador, etc).
O modelo da Dinâmica da Espiral foi já testado em mais de 50 mil pessoas de todo o mundo e mantem-se válido. Ele apresenta-se, graficamente, com este aspecto:
Os vMEMES actuam a três níveis distintos: indivíduos (modelando as suas vidas e os seus valores, da sobrevivência mais básica no aldeão global até ao mais inacessível pensador); as organizações (determinando o seu sucesso ou o seu fracasso no mercado competitivo); e as sociedades (locais ou nacionais) que seguem modelos de existência dependentes de vMEMES com diferentes sentidos (democrático, conservador, etc).
Wilber divide a espiral em dois grandes estádios: o primeiro contempla os níveis mais inferiores de desenvolvimento psicológico e onde se situa a maioria da população mundial (das nações, dos governos, das empresas); o segundo abrange os níveis mais evoluídos e contempla um número mais restricto mas psicologicamente e culturalmente poderoso.
São nove os níveis de evolução humana propostos por Ken Wilber com base no modelo inicial de Graves e conforme a predominância dos vários vMEMES:
Nível 1 (prevalece o instinto de sobrevivência, a prioridade é dada aos alimentos, ao calor, ao sexo e à segurança). Encontra-se ainda, segundo Wilber, em 0,1% da população adulta mas também se observa em todos os bebés recém-nascidos, nos sem-abrigo, nas massas de população faminta do Sudão e de outras regiões inóspitas.
Nível 2 (predomina o pensamento animista). Estão neste estádio cerca de 10% da população e pode ser encontrado nos gangs, nas “tribos” corporativas, nas populações devotadas a rituais mágicos, pactos de sangue, crenças e superstições étnicas de cariz mágico.
Nível 3 (mentalidade feudal). Encontram-se neste nível cerca de 20% da população adulta mundial e 5% do poder está nas suas mãos. Pertencem a este nível reinos feudais da Ásia muçulmana, líderes de gangs, juventude rebelde, crianças entre os 2 e os 3 anos de idade e mentalidades de fronteira (lutam sobretudo pela posse de territórios).
Nível 4 (mentalidade conservadora e corporativa). 40% da população adulta mundial vive neste nível de existência e detem 30% do poder. São exemplos a América puritana, a antiga China confucionista, o judaísmo hassídico, o fundamentalismo religioso cristão e islâmico, grupos como o Exército da Salvação, os escuteiros e ideias como o patriotismo, organizações.
Nível 5 (mentalidade racional-materialista). Encontra-se em 30% da população que detem 50% do poder actual. Indivíduos e sociedades altamente orientadas para os resultados: Wall Street, classes médias emergentes no mundo ocientalizado, colonialismo, indústria da moda, etc.
Nível 6 (ecológico e comunitário). Neste nível vivem cerca de 10% da população que detem 15% do poder. Sensíveis ao equilíbrio ecológico, contra as hierarquias estabelecidas, as pessoas que estão neste estádio são fortemente pluralistas, defendem o multiculturalismo e a igualdade. Encontram-se nos movimentos ecologistas, no idealismo holandês, nas organizações não-governamentais como os Médicos Sem Fronteiras, nos partidos “os verdes” da Europa, etc.
Nível 7 (integrador). Um por cento da população, com cinco por cento de poder situam-se neste nível. Defendem um mundo sem fronteiras, igualitário, transcendente, solidário. A flexibilidade, a espontaneidade e a funcionalidade têm prioridade máxima. Exemplos: a Teoria do Caos, a “nova física” de Fred Allan Wolf, ensinamentos de Deepak Chopra.
Nível 8 (holístico, visão global). Apenas 0,1% da população está neste estádio e detem 1% do poder. Crença principal: o mundo é um único organismo dinâmico, com a sua própria mente colectiva. Exemplos: o conceito de “aldeia global” de McLuhan, as ideias de Gandhi de harmonia pluralista, os ensinamentos do filósofo Ken Wilber, a “hipótese Gaia” de James Lavelock e a “noosfera” de Pierre Teilhard de Chardin.
O mais brilhante filósofo da actualidade - Ken Wilber - cujos ensinamentos são um exemplo do nível 8 defende um próximo estádio, o 9º:
Nível 9: (integral e holónico). Estará lentamente a emergir em alguns (poucos) núcleos. Wilber, em A Theory of Everything defende uma nova humanidade que altere radicalmente velhos paradigmas e conflitos despertando nos indivíduos o aproveitamento integral das potencialidades humanas. O núcleo central deste “movimento para cima” situa-se no Instituto Integral (Estados Unidos) e tem atraido personalidades e investigadores de distintas disciplinas tais como David Chalmers, Howard Gardner (teorizador das Inteligências Múltiplas), John Searle (conhecido estudioso do fenómeno da consciência), o físico Ervin Lasszlo, o biólogo Francisco Varela (entretanto falecido), Larry Dossey, etc.
Na chamada consciência de segunda camada (isto é, aquela que surge a partir do "estádio integrador", níveis 8 e 9) estão poucas pessoas "porque constitui, no presente momento, a linha da frente da evolução humana colectiva". São estes que estarão a mudar o mundo.
Os novos líderes, a quem os investigadores Don E Beck e Christopher C Cowan chamam de Feiticeiros da Espiral, devem seguir 5 princípios:
- reconhecer as forças mentais que existem "na cabeça" das pessoas que lideram;
- incorporar um estilo universal de liderança C-A-A (cortesia, abertura mental e autocracia positiva);
- exercer as opções de intervenção apropriada nas situações;
- seguir as seis "Regras do Polegar" (oportunamente desenvolverei esta ideia);
- activar o pensamento de segundo nível (estágio integrador e seguintes) para incidir na liderança.
Actualmente e porque os líderes do velho sistema (a sociedade conotada com a "2ª vaga" de Alvin Tofler) ainda são a grande maioria, repartem-se por distintos estilos de liderança. São eles: o comunitário/tribal; o racional/económico; o moralista/prescritivo; e, o explorador/egocêntrico.
As Ondas de Existência
A mais importante disciplina do estudo do desenvolvimento humano será aquela que permita aceder ao conhecimento do desenvolvimento da mente e da evolução da consciência.
Nomes como Abraham Maslow, Clare Graves, Deirdre Kramer, Jan Sinnot, Jurgen Habermas, Cheryl Armon, Kurt Fischer, Jenny Wade, Robert Sagan, Susanne Cook-Greuter, Don Beck, Christopher Cowan e Ken Wilber desenvolveram modelos na convicção de que o crescimento e a evolução da mente (e da consciência) faz-se através de ondas ou estádios que se sobrepõem e desenvolvem.
À medida que avançamos no novo milénio o assunto mais quente na frente intelectual é, por certo, o do estudo da consciência, um dos grandes enigmas que a Ciência ainda não desvendou. Não faltam teorias e explicações. De um lado a Biologia procura compreender como o sistema nervoso "faz" a consciência. Do outro, a Psicologia Evolutiva tenta perceber como a consciência evolui e influencia a nossa compreensão do mundo e os comportamentos. Finalmente, os Filósofos da Mente questionam-se sobre o que é, afinal, a consciência.
1.000.000 d.c.
Esse estudo - em que participou uma equipa pluridisciplinar de cientistas - concluía que a vida no nosso planeta dentro de milhões de anos, mas mais seguramente dentro de 10 milhões de anos e mais, será completamente diferente daquela que hoje conhecemos (o que não é surpresa). A evolução da vida, quer do planeta quer dos seres vivos, segundo esse inovador estudo, atingirá tal magnitude que é difícil reconhecermos o que quer que seja. Muitos seres vivos actuais, incluindo o Homem, não existirão mais. Muitos outros evoluirão para seres de anatomia e comportamento completamente diversos daqueles que hoje exibem. Recordo-me de ver lido que lulas gigantes anfíbias poderiam ocupar um lugar cimeiro na escala dos animais mais inteligentes à face do planeta.
É pacífico aceitar que, dentro de 1 a 10 milhões de anos, a Terra terá um aspecto completamente diferente e os seres vivos que por aqui se movimentarão apresentarão organismos e formas completamente distintas dos animais que conhecemos actualmente. O mesmo se passará com a flora. Voltarão os tempos em que os animais e as plantas atingirão proporções inimagináveis fazendo recordar épocas passadas em que a Terra era povoada por répteis de tamanho gigantesto e grande dinossauros (eles povoaram a Terra durante mais de 180 milhões de anos e desapareceram há cerca de 65 milhões de anos, muitos milhões de anos antes dos primeiros seres aparentados com os futuros humanos terem surgido). Ligação entre biologia e convicções
Os investigadores recrutaram 46 voluntários "com fortes convicções políticas" - de ambos os lados - e pediram que dessem a sua opinião sobre imigração, ajuda externa, controle de armamentos e outras questões políticas. Dois meses depois fizeram-nos voltar ao laboratório para submetê-los a um teste muito diferente.
Os pesquisadores aplicaram em cada voluntário equipamentos de medição para analisar o suor, os movimentos oculares súbitos e outros sinais de ansiedade e lhes mostraram 33 fotografias. Todas eram inofensivas, menos três: uma aranha do tamanho de um caranguejo pousada no rosto de uma pessoa, um homem aturdido com rosto ensanguentado e uma ferida aberta infestada de vermes. Também estudaram a sua reacção a explosões repentinas.
O resultado é uma clara correlação positiva: os voluntários mais assustados - os que reagem com mais força aos ruídos e às fotos ameaçadoras - também tendem a ser os mais preocupados em proteger os interesses de seu grupo social, seja contra inimigos externos ou criminosos internos.
Além dos pontos citados no primeiro parágrafo, a correlação com o susto se estende a posições políticas favoráveis a - lembre-se de que os participantes eram americanos - "as revistas sem autorização judicial, a pena de morte, a Lei do Patriotismo, a obediência, a oração na escola e a verdade da Bíblia", segundo um dos autores, o cientista político John Alford, da Universidade de Rice em Houston, Texas.
As pessoas mais assustadiças também tendem a se opor ao pacifismo, à imigração, ao compromisso político, ao controle de armas, à ajuda externa, ao sexo pré-conjugal, ao casamento gay, ao aborto e à pornografia.
As simples correlações estatísticas não implicam por força uma relação de causa. Mas Alford acredita que esses dados "podem ajudar a explicar a pequena flexibilidade nas crenças das pessoas com fortes convicções políticas e também a onipresença do conflito político".
As atitudes diante do público tradicionalmente foram vistas como reacções ajustadas às circunstâncias sociais e históricas. Mas algumas pesquisas recentes apontam uma "qualidade intrínseca, quase automática, de muitas reacções políticas", afirmam Hibbing e seus colegas. Há evidências de que a mesma estrutura cerebral (a amígdala, relacionada com a emoção do medo) está envolvida nas atitudes políticas.
O futuro da mente humana

50 mil anos depois do cérebro humano ter atingido as suas actuais capacidades e 4 milhões de anos após o aparecimento da primeira espécie animal com características humanóides, uma pergunta se deve agora colocar: terá o nosso cérebro aptidões para lidar com tanta informação e tantos novos conhecimentos produzidos pela actual Era Tecnológica? Qual a evolução esperada da mente humana?
Pensamento acelerado, stress, fobias, ansiedade, instabilidade e insegurança emocionais....Eis alguns dos sintomas da dificuldade de adaptação ao meio ambiente actual. Ora isto é já considerado um problema social (e político) nas sociedades mais avançadas, especialmente nas grandes metrópoles da Europa, Ásia e América.
A mente humana – com todos os atributos, potencialidades e mistérios que lhe são recon-hecidos – continua a ser um tema sedutor e aberto às mais variadas abordagens (filosóficas, biológicas, neuropsicológicas, etc.). Produto da actividade concertada de grandes aglomerações de células cerebrais altamente especializadas e de um complexo metabolismo que só agora começa a ser compreendido, a mente humana cumpre numerosas funções que se exprimem em diferentes planos.
Graças à evolução bem sucedida do sistema cérebro-mente, a história da Humanidade é um percurso empolgante de conquistas. Em não muitos milhões de anos vencemos uma série de etapas evolutivas e, chegados ao século XXI, eis-nos senhores de uma sociedade multifacetada, complexa e altamente competitiva - produto, afinal, da dinâmica interacção entre o exercício do pensamento e os desafios da vida.
As capacidades possíveis
A história da humanidade reflecte assim, desde os seus primórdios, o resultado da nossa inteligência criativa. Em poucos milénios desbravámos territórios inóspitos e levantámos civilizações. Em pouco tempo percebemos que tínhamos o poder de exercer transformações no que antes parecia imutável. A criatividade tornou-se a grande força da nossa inteligência. De simples recoletores e caçadores passámos rapidamente a inventores, técnicos e artistas. E com isso modificamos completamente a face do planeta e a história do nosso Mundo.
Agora, em plena Era do Conhecimento, o intelecto perfila-se como um capital de valor inestimável. Já ninguém duvida que a riqueza das nações, das comunidades e de todas as organizações (seja de que tipo forem) depende mais dos recursos intelectuais – inteligência, criatividade e conhecimento – do que qualquer bem tradicional, incluindo o próprio dinheiro. De facto, a força muscular e o trabalho das máquinas estão rapidamente a ser substituídos pela inteligência e o saber.
Torna-se, por conseguinte, naturalmente aceite que cuidemos do cérebro como cuidamos do resto do corpo. Esta certeza assenta em três princípios fundamentais:
- O cérebro é um órgão que tem a capacidade para se renovar a si mesmo.
- O cérebro tem capacidade ilimitada de aprendizagem e pode aumentar a sua eficiência através do exercício.
- O cérebro responde eficazmente à actividade física, ao treino mental e ao estilo de vida, podendo manter-se ágil durante toda a vida.
Um sistema dinâmico
Uma característica vital do cérebro é chamada de neuroplasticidade. Aqui reside o segredo do poder mental. A neuroplasticidade (ou plasticidade neural) refere-se à capacidade dos neurónios se transformarem e adaptarem a sua estrutura e função em resposta às exigências externas e internas do organismo.
De facto, toda a exigência que desafie ou estimule o cérebro (por exemplo, aprender um novo idioma) produz mudanças anatómicas muito significativas a nível celular como o aumento das dendrites (filamentos que se ramificam a partir do centro da célula para contactarem outros neurónios), o aumento no número de espinhas dendríticas, a formação de novas sinapses (junções especializadas existentes nos neurónios através das quais estes conectam entre si), o aumento da actividade das neuroglias (células que apoiam os neurónios) e alterações no metabolismo celular (transformações químicas que estão no centro do trabalho cerebral).
É lícito acreditar (na verdade, está cientificamente demonstrado!) que um cérebro activo e estimulado por diferentes desafios se revele mais perspicaz, mais hábil e naturalmente mais capaz de responder às solicitações do pensamento e do meio ambiente.
É preciso levar em conta essas potencialidades. Um cérebro que é estimulado pela experiência e a aprendizagem consegue operar uma actividade mental com alto rendimento. Assim, na exigente sociedade de hoje só as pessoas que invistam seriamente no seu capital cognitivo e intelectual (inteligência, criatividade e conhecimento) poderão aspirar a lugares destacados no mundo do trabalho.
Aprender mais e mais e durante toda a vida tornou-se, por conseguinte, numa exigência da Era do Conhecimento. Para tal temos de estar na melhor forma mental. A “potência cerebral óptima” pode ser atingida através de um estilo de vida sadio, uma alimentação equilibrada e uma verdadeira (e regular) ginástica cerebral.
As dúvidas
Mas....é lícito questionar: de que maneira vai a mente humana evoluir com tanta informação e tantos estímulos sensoriais à sua volta?
Repare-se: as estruturas do cérebro humano actual, responsáveis pela capacidade de gerar os padrões de energia e de informações que estão presentes nos processos e estados mentais, têm uma história de pouco mais de 50 mil anos quando a nossa espécie surgiu (a qual seria, acrescente-se, seria a última de uma série de espécies hominídeas - pelo menos 5 - que viveram na Terra nos últimos 4 milhões de anos).
Dizem-nos os neurobiólogos que a actual capacidade do cérebro permite-lhe adaptar-se a ambientes crescentemente complexos. Isso mesmo tem acontecido sobretudo nos últimos 5 mil anos e, mais ainda, nos últimos 100 anos. Mas a complexidade da sociedade tecnológica está a aumentar a um ritmo impensável até há pouco tempo atrás.
Actualmente vivemos um período de transformações profundas e de maior conectividade social. A produção de informação cresce de forma imparável, imediatista e ao mesmo tempo efémera. Uma pergunta parece-nos então óbvia: teremos capacidade para lidar com tanta informação e estímulos em simultâneo à mistura com sentimentos de incerteza e de ambiguidade?
Afinal, muitas pessoas (cada vez mais, na verdade) revelam síndromes preocupantes: pensamento acelerado, estados depressivos, ansiedade patológica, instabilidade, agressividade, inquietude e medos.
Tudo isto é um mau presságio. E há quem faça a advertência: as sociedades modernas estão em risco de uma grave ruptura psicológica e social. Os sinais estão à vista: cresce o número de pessoas com perturbações emocionais e cognitivas.
Estaremos então no limite das nossas capacidades mentais? Ou estaremos apenas impreparados para acompanhar o ritmo de transformações (sociais, tecnológicas e culturais) e a torrente de informação que todos os dias e a toda a hora nos cerca e invade?
A questão - que não é apenas do foro médico - merece que nos debrucemos urgentemente sobre ela.
Texto de Nelson S Lima
O QUE DIZ STEVE PINKER
Notável professor e director do conhecido Centro de Neurociência Cognitiva do Instituto Tecnológico de Massachusetts. Professor de psicologia da Universidade de Harvard. Formado pela Universidade de MacGill e doutorado na Universidade de Harvard na disciplina "Psicologia Experimental". Defensor da psicologia evolucionista e da teoria computacional da mente.
A mente humana ainda está ainda a evoluir?
"Uma boa aposta é dizer que não. Certamente o processo de evolução não apresenta o mesmo ímpeto de cerca de 100.000 anos atrás, quando surgiram os primeiros crânios modernos. A indagação que precisamos fazer é: como a posse de uma mente mais poderosa se traduziria, no decorrer dos séculos futuros, em maiores chances de procriação para os donos desses cérebros, em maiores chances de ter filhos que herdassem essa mente "evoluída"? Para nossos antepassados, que viviam da recolha de alimento e fugindo de predadores, a vantagem era clara.
Aqueles que tinham a mente mais poderosa, que faziam as melhores ferramentas ou concebiam as melhores estratégias de caça, conseguiam sobreviver. Hoje, essa relação não é mais evidente. Tomamos conta de toda a Terra e criamos redes sociais que protegem também os mais fracos
em termos biológicos. Ninguém precisa mais matar um mamute para sobreviver. Uma evolução mental teria de levar em conta, ainda, os custos associados a um cérebro grande e uma mente complexa como a nossa.
O tecido cerebral consome um monte de energia. Além disso, cérebro grande significa cabeça volumosa, o que aumenta os riscos para o bebé e para a mãe na hora do parto.
Estaríamos próximos, assim, do limite de nosso desenvolvimento cultural e tecnológico?
Não, ainda há muito a explorar na mente humana, e é certo que nossa cultura e tecnologia evoluirão drasticamente. Só é bastante provável que tenhamos atingido o nosso limite biológico. De todo modo, nenhum de nós estará aqui para assistir a um "salto evolucional". Lembre-se: a evolução biológica é um processo que envolve muitas e muitas gerações, num período longuíssimo. Só os heróis das histórias em quadrinhos ganham superpoderes de repente".
(Adaptado de uma entrevista à revista VEJA (Brasil).
Charme e Carisma
As pessoas carismáticas são reservadas quanto baste para conservarem algum mistério à sua volta. Na verdade, para além de enérgicas, intrigantes e excitantes, as pessoas com carisma são geralmente enigmáticas e misteriosas pois o seu estatuto, o poder e a posição que ocupam - e até a sua cultura, a sua sabedoria e talento - estão além da vulgaridade.
A principal caracteristica do carisma é a energia que permite à pessoa ter uma visão, uma missão, enfim, quaisquer espécies de objectivos ou finalidades e saber transmiti-las aos outros de tal modo que eles aderem com entusiasmo ao que lhes for proposto.
Na mesma linha de raciocínio, o investigador Peter Sharpe diz que o carisma é a capacidade de fazer as pessoas ouvir o que dizemos de tal forma que elas “animam-se com o que estamos a dizer, ouvem o que estamos a dizer e, o que é mais importante, actuam de acordo com o que estamos a dizer da forma que queríamos que actuassem“.
Pessoas carismáticas? Pois apontam-se geralmente nomes como Obama, Nelson Mandela, Martin Luther King, John Kennedy, Gandhy e muitos outros.
As personalidades carismáticas são, em regra, pessoas activas, peremptórias, enérgicas e apaixonadas por aquilo que fazem. Possuem uma série de características tais como: presença; confiança, energia e entusiasmo; autodeterminação; convicções fortes; tendência para dominar; unem forte necessidade de influenciar os outros; capacidade para sentir, intuitivamente, o que os outros sentem; uma natureza extrovertida; e muita perspicácia.
Por vezes, possuem também, características fisicas atraentes, uma voz dominante e inesquecível, olhar hipnótico ou que prende e uma espécie de aura muito pessoal.
O QUE É A MENTE?
O campo de energia físico-química está preso a um sistema de leis lineares, previsíveis e lógicas, enquanto o campo de energia psíquica ultrapassa os limites dessas leis.
A psique também transmuta tensões emocionais no campo de energia cerebral gerando possíveis microalterações metabólicas psicossomáticas e sintomas psicossomáticos, às vezes clinicamente detectáveis.
De acordo com a neurobiologia, a mente emerge a partir da actividade do cérebro e é moldada pela estimulação externa e a experiência interpessoal (vivências).
O conceito de mente pode ser definido de diferentes maneiras consoante nos colocarmos, por exemplo, na perspectiva da investigação filosófica, neurofisiológica ou das ciências psicológicas.
Segundo o psiquiatra António Imbasciati “há uma certa tendência geral em considerar o complexo dos sentimentos, afectos e emoções como um conjunto de processos psíquicos diferentes do que constitui os processos cognitivos (pensamento, memória, inteligência, etc.)” reservando-se para estes últimos o termo “mental”. Este modo diferente de dividir a mente em “psique” (afectos) e processos “mentais” (cognitivos) tem origem na concepção medieval da psicologia como “ciência da alma” e da contraposição dos dois princípios – matéria e espírito – na actividade humana.
A mente envolve todos os comportamentos, desde os mais simples aos mais complexos sendo sustentada por um ou mais "programas", facto que remete para a existência da percepção, da memória e da aprendizagem como funções determinantes para a função mental.
É importante salientar que não existem funções psíquicas ou mentais isoladas. A mente é um todo onde decorrem simultaneamente actividades conscientes e não conscientes.
Na verdade, ela resulta de padrões no fluxo de energia e informações no interior do cérebro e entre cérebros, é criada no seio da interacção dos processos neurofisiológicos internos e das experiências interpessoais, a estrutura e o funcionamento do cérebro são determinadas pelo modo como as experiências (vivências e estímulos) moldam a maturação geneticamente programada do sistema nervoso.
A mente, que não pára de se desenvolver ao longo da vida, possui meios distintos de processar as informações e os estímulos oriundos do exterior e do seu relacionamento com outras mentes. Neste aspecto, é de destacar o papel das emoções que intervêm de forma activa na organização central do cérebro. Assim, a capacidade de um indivíduo organizar as suas emoções determina a capacidade da mente de integrar a experiência e de se adaptar a futuros focos de tensão.
Uma mente assustada
Adaptado de um texto de Ken Grimes
Publicado na revista "New Scientist"
Diversos psicólogos evolucionistas sugerem que os instintos e as fobias de seres humanos modernos podem ter sido moldados há milhões de anos, quando os ancestrais da humanidade teriam sido presas de grandes carnívoros nas savanas do actual continente africano.
O psicólogo Richard Coss, da Universidade da Califórnia em Davis, argumenta que, longe de a humanidade ter passado tranquilamente para o estágio de caçadora, a sua evolução foi moldada de maneira dramática por uma prolongada luta para levar a melhor sobre predadores que a vitimavam. Até ao momento em que nossos ancestrais conseguiram derrotar os predadores, os humanos foram uma espécie caçada, e esse longo período da história passado na condição de potencial refeição moldou a maneira como somos hoje.
Se essa teoria estiver correcta, a fase de nossa evolução em que fomos presas pode ajudar a explicar não apenas nossos temores e fobias, mas também algumas das características-chave que nos fazem humanos, incluindo a nossa capacidade de intuir os pensamentos uns dos outros, os nossos valores sociais de lealdade e amizade e, possivelmente, até mesmo a nossa linguagem e tecnologia.
As versões populares da história dos hominídeos destacam a importância de nossa "queda" pré-histórica, ocorrida há cerca de 5 milhões de anos, quando mudanças climáticas de longo prazo levaram ao encolhimento das florestas tropicais africanas, obrigando os nossos ancestrais a descer de seu refúgio no alto das árvores.
O que muitos relatos não esclarecem é a natureza infernal desse novo ambiente. Na floresta escondiam-se tigres dente-de-sabre, leopardos e ursos carnívoros gigantes. Ainda mais perigosa era a sempre crescente savana, percorrida por predadores que caçavam em bandos: hienas gigantes, cães com dentes como lâminas e do tamanho de lobos, leões e mais dentes-de-sabre.
Parece haver poucas dúvidas de que esses predadores -que já tinham prática de caçar animais mais velozes, maiores e mais bem armados do que os hominídeos- teriam achado os humanos primitivos, que eram lentos, abundantes e fracos, uma refeição tentadora.
Os primatas actuais enfrentam os mesmos perigos. Os pesquisadores que estudam os padrões modernos de actividade predatória constantemente encontram restos de primatas nas fezes de carnívoros de grande porte. Ademais, Kim Hill e Anna Magdalena Hurtado, na Universidade do Novo México, em Albuquerque, descobriram que 6% das mortes de adultos jovens da tribo paraguaia dos Aché eram causadas por onças.
Coss afirma que isso teria sido ainda pior com os nossos ancestrais pré-históricos. "Uma vez que leopardos e leões aprendem com que facilidade a carne pode ser arrancada dos ossos humanos, eles se tornam matadores vorazes, com preferência quase exclusiva por humanos", diz ele.
O pesquisador recorre ao registro fóssil para reforçar o seu ponto de vista. Em tocas de carnívoros datadas de 1 a 3 milhões de anos atrás em cavernas sul-africanas foram encontrados os fósseis de 324 babuínos e 140 australopitecos -prováveis antepassados dos humanos-, muitos deles ostentando marcas típicas de danos provocados pelas presas e as garras de felinos de grande porte e hienas predadoras.
O facto de fazer parte do cardápio de outro animal não poderia deixar de ter implicações evolutivas para o homem. Entre caçadores e caçados desenvolve-se uma "corrida armamentista" que pode levar a transformações no animal que é a presa, tais como aumento de tamanho, aumento da velocidade ao correr e habilidades sensórias aumentadas. Também pode provocar diversas adaptações comportamentais, como o agrupamento em rebanhos, o aumento da vigilância e o ataque aos predadores em grupos.
Marcas da evolução
Coss está convencido de que os humanos ainda ostentam as marcas dessa fase. Instintos herdados podem ficar gravados no cérebro por muito tempo, diz ele, mesmo depois de terem se tornado obsoletos. Isso talvez explique alguns resquícios comportamentais, tais como o reflexo de Moro -uma reacção manifestada por bebês recém-nascidos quando se assustam, na qual eles tentam agarrar com os pés e as mãos. É algo semelhante ao modo como um bebé macaco, quando assustado, se agarra à barriga da mãe.
Outros pesquisadores argumentam que alguns de nossos temores irracionais são resquícios evolutivos dos perigos presentes em nosso ambiente ancestral. "A fobia de aranhas, por exemplo, é muito mais comum do que a fobia de carros", diz o antropólogo Clark Barrett, da Universidade da Califórnia em Los Angeles.
"No entanto, a probabilidade de sermos mortos por um carro é muito maior, nos ambientes urbanos modernos, do que a de sermos mortos por uma aranha venenosa." Barrett acredita que, se predadores foram uma influência importante sobre nossa evolução, então deveríamos estar bem sintonizados para compreendê-los. E é exactamente isso o que ele está a constatar.
Por exemplo, crianças de diferentes culturas -incluindo culturas urbanas- parecem possuir um apetite insaciável por informações sobre predadores, mesmo os extintos. Barrett chama isso de "síndrome de Jurassic Park".
Não há dúvida, porém, de que a ameaça de sermos comidos afectou a nossa vida social de maneira directa. "Ela constitui a força motriz que levou os primatas a viver em grupos", observa a primatologista Louise Barrett, da Universidade de Liverpool. Ao viver em grupos, babuínos e chimpanzés aumentam sua capacidade de detectar predadores e escapar no meio da confusão.
Comprovação impossível
Coss, Clark Barrett e Treves sabem que terão de fazer mais do que já fizeram para fortalecer a sua idéia, mas também acreditam que ela possui grande potencial para aprofundar a nossa actual compreensão da evolução humana. "Temos a tendência a pensar nos humanos pré-históricos como caçadores", diz Louise Barrett, "mas eles provavelmente passavam muito tempo escondidos em tocas." O mundo, lá fora, era demasiado perigoso, assustadoramente perigoso! E isso deixou marcas profundas no inconsciente colectivo que perduram até hoje.
A CRENÇA CAUSAL: o segredo da nossa mente!
Lwis Wolpert, biólogo do desenvolvimento, defende que a principal função do cérebro é simplesmente controlar os nossos movimentos e a nossa integração com o meio ambiente. Ele propõe que a evolução do pensamento causal (capacidade de perceber efeitos e causas de acontecimentos) foi essencial para o desenvolvimento de ferramentas em idades remotas da História, o desenvolvimento da linguagem e a
interacção social - factores que nos tornaram humanos.A crença causal surge nas crianças cerca dos 18 meses de idade.
O que é a crença causal? É a capacidade da mente que nos permite acreditar no efeito que determinados acontecimentos podem surtir em algo. Por exemplo: sabemos que se largarmos um objecto ele cai (mesmo que desconheçamos que é por efeito da força da gravidade).
Esta "compreensão causal" é única nos humanos já que os restantes animais mais próximos de nós (os chimpanzés e os gorilas) revelam pouca compreensão acerca das relações causais entre objectos inanimados; ou seja, não compreendem o mundo em termos intencionais e causais.
Ora, entre nós, as crianças com menos de 3 anos de idade descobrem rapidamente que determinados objectos têm propriedades causais, que o movimento (de uma bola, por exemplo) resulta de algum tipo de força exercida sobre eles.
O facto dos bebés e as crianças desenvolverem crenças causais demonstra que estas têm uma forte base genética.
Foi assim que a evolução do cérebro humano se operou a partir de determinada época (há uns 2 milhões de anos) ainda que de forma lenta. Depois, a imitação, a curiosidade e a experimentação fizerem nascer uma tecnologia primitiva que causou a libertação dos humanos do determinismo biológico que os aprisionava à Natureza e aos instintos, tornando-os em seres pensadores, criativos e com capacidade para fabricar os mais diversos tipos de materiais e objectos com os quais transformaram o seu próprio mundo até hoje e para sempre.
INTUIÇÃO
A intuição é um tema que tem sido objecto de muitas reflexões. Normalmente, as pessoas entendem a intuição como um "sexto sentido", uma forma singular de percepção e também de conhecimento.Geralmente é definida como um conhecimento que surge espontaneamente, sem a intervenção consciente do raciocínio e da reflexão.
Na filosofia chinesa a intuição quer dizer "conhecimento directo" e que resulta de uma visão interior realizada não através dos olhos mas da contemplação.
Alguns especialistas atribuem a intuição a processos de pensamento muito rápidos. De acordo com esta teoria, várias pequenas insinuações podem ser rapidamente integradas, tornando possível conclusões sem qualquer acto intermediário aparente.
O pensamento pós-modernista da Nova Era entende que “enterrado no fundo de cada um de nós, existe uma consciência instintiva que nos proporciona o mais confiável guia para sabermos se nossas acções estão voltadas para o interesse comum da vida que existe no nosso planeta. Precisamos usar mais o bom senso que emana dos nossos corações”.
Actualmente, as ciências cognitivas revelam que o pensamento ocorre no segundo plano de nossas mentes. Estudos sobre processamento automático, memória implícita, funcionamento do cérebro direito, emoções instantâneas, comunicação não verbal e criatividade revelam a capacidade intuitiva.
O pensamento, a memória e o comportamento operam em dois níveis: o consciente/intencional e o inconsciente/automático. É uma forma de processamento duplo e simultâneo.
Segundo a psicoterapeuta Maria Clara Heise, "isso vem nos mostrar que temos dois tipos de mente: uma para a percepção imediata e outra para todo o resto!".
E acrescenta: "Quando nossos ancestrais encontravam um estranho na floresta tinham que decidir instantaneamente se era um amigo ou inimigo. Aqueles que faziam uma leitura rápida e acurada tinham mais chance de sobreviver e deixar descendentes, o que explica o porquê das pessoas hoje serem capazes de distinguir só com um olhar as expressões de raiva, tristeza, medo, prazer, etc. É graças a essa sensibilidade que nos conduz dos olhos para os centros de controle emocional do cérebro que reagimos de forma emocional, antes de termos tempo de fazer uma interpretação racional do que está acontecendo. Ou seja, primeiro sentimos, depois o cérebro interpreta".
Assim, uma explicação alternativa apresentada por Ellen Campbell e J.H.Brennan é a de que "a intuição é o resultado de uma capacidade especial, ou de uma afinidade para com o objecto considerado - algo quase semelhante a um dom psíquico" (*)
Habitualmente diz-se que as mulheres têm uma melhor intuição do que os homens. Alguns testes de personalidade mostram que os homens chegam a um score de 60% para a medida de “objectividade” (as decisões são tomadas baseadas na lógica) e as mulheres têm 90% para “sensibilidade” (as decisões são subjetivas, baseadas no que estão sentindo). Sem dúvida que a intuição faz parte do processo de tomada de decisão. "Mas parte dessa verdade é que tambem acontecem muitos erros" - diz a psicoterapeuta.
Seja como for, a intuição é mais poderosa do que imaginamos. Alimenta a nossa criatividade, o intelecto, a percepção do amor e ainda a espiritualidade.
A ciência nota que a intuição funciona para algumas áreas, mas requer restrições noutras e, por conseguinte, pode ser perigoso deixarmo-nos levar somente pela intuição, desprezando o bom senso e a lógica. "Por outro lado, com certeza seremos mais espertos, sensíveis e criativos se dermos ouvidos aos murmúrios que surgem da nossa mente obscura"- conclui a psicoterapeuta Maria Clara Heise.
(*) Campbell, E. & Brennan, J.H., "Dicionário da Mente, do Corpo e do Espírito", Editora Mandarim, S.Paulo, 1997).
MENTE ESPIRITUAL

Segundo o psicólogo canadense Michael Persinger, que declarou anos atrás ter desencadeado, ao apertar um botão, sentimentos quase religiosos em voluntários ao sensibilizar certas regiões do cérebro por meio da Estimulação Magnética Transcranial, acaba de afirmar que Deus é uma construção da mente.
Segundo a revista VIVER MENTE & CÉREBRO, Pehr Granqvist, da Universidade de Uppsala, Suécia, jogou um balde de água fria sobre os pesquisadores. Baseado no método de Persinger, Granqvist expôs novamente a mente dos quase 90 participantes de sua pesquisa a fortes campos eletromagnéticos. Nem a pessoa testada nem o coordenador, porém, sabiam em que momento a corrente magnética estaria ligada.
O resultado do teste foi surpreendente: cerca de 25% dos "enganados" relataram ter tido "um sentimento estranho", como se uma terceira pessoa invisível estivesse presente. Mas uma em cada duas pessoas viveu essa experiência espiritual com o estimulador cerebral desligado.
Segundo uma pesquisa feita posteriormente, os espiritualistas estavam, de maneira geral, mais abertos a experiências sobrenaturais. Seria este apenas um efeito placebo? Segundo o cientista, não. Parece que o método de Granqvist não seria comparável ao seu, além de que o tempo de exposição teria sido insuficiente para estimular o cérebro suficientemente.
A MENTE SENSORIAL
Os humanos comunicam de diferentes maneiras: palavras, gestos, olhares e posturas fazem parte de um reportório imenso com o qual formamos linguagens.A prova foi fornecida por Beatrice de Gelder, da Faculdade de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos. Por meio de um tomógrafo de ressonância magnética, ela acompanhou a actividade cerebral de pessoas enquanto assistiam a curtas seqüências de vídeo nas quais actores amadores faziam poses diversas com expressões neutras no rosto.
As posições de pé ou de braços abertos não suscitaram nenhuma reacção fora do comum nos observadores. Mas à visão de pessoas claramente encolhidas de susto ou agachadas, uma série de regiões do cérebro entrava em funcionamento: ao lado da amígdala, do sistema límbico, também as células nervosas do córtex pré-motor se activaram. Ali estavam os neurônios responsáveis tanto pela simples visão quanto pela execução activa de algumas reações. Assim, os pesquisadores consideraram os padrões de actividade cerebral como sinal de que as pessoas testadas já repetiam internamente as atitudes observadas.
Também se concluiu que os sinais de alarme transmitidos pela linguagem corporal não faziam parte da reflexão consciente - na verdade, eram difundidos como uma avalanche de medo. Assim, em uma multidão alarmada até o último fio de cabelo, muitas vezes um mínimo sinal pode desencadear pânico em massa.
O Poder Oculto do Inconsciente

A Consciência vista pela neurociência

António Damásio, o autor de O Mistério da Consciência, um dos maiores neurologistas do mundo, diz que a grande polémica, no futuro, será o controle das emoções pelo conhecimento da mente
No campus da Universidade de Iowa, Estados Unidos, o neurologista português António Damásio gasta boa parte do tempo tentando compreender uma das áreas mais nebulosas do conhecimento: a consciência humana. "É difícil encontrar um desafio mais instigante para um cientista", diz Damásio. "Afinal, o que poderia ser mais fascinante do que conhecer o modo como conhecemos?"
Nos seus dois livros, O Erro de Descartes e O Mistério da Consciência (editados no Brasil pela Companhia das Letras), Damásio descreve como a consciência abriu caminho para uma verdadeira revolução na natureza, tornando possível o surgimento da religião, da moral, da organização social e política, das artes, da ciência e da tecnologia. Ele tenta encontrar as respostas para as questões mais antigas da filosofia pesquisando o que há de mais novo no conhecimento do cérebro. Depois da polémica em torno da clonagem humana, ele prevê que os debates mais fervorosos da ciência estarão ligados à possibilidade de manipularmos nossas emoções por meio de uma melhor compreensão da mente.
Qual a origem da consciência humana?
A consciência é fruto da necessidade básica de nos mantermos vivos. É claro que, na natureza, existe uma série de organismos simples que vivem de uma forma basicamente automática. Desde que mantenham cuidados básicos, como evitar perigos e adquirir a energia por meio dos alimentos, a vida desses organismos pode ser preservada. Os seres humanos são mais complexos: além de precisarem manter a vida de uma forma simples, eles têm que se adaptar a um ambiente cheio de dificuldades para obter energia e se expõem a inúmeros perigos e oportunidades. Nesse ambiente que não é apenas físico, mas também cultural, precisamos de um sistema complexo de imaginação, criatividade e planeamento. A consciência surge dessa necessidade.
Existe uma primeira forma de consciência?
Uma forma de consciência inicial aparece quando o homem sente que ele é um ser em si mesmo. É difícil encontrar uma palavra, em português, para definir o processo. Chamo essa consciência de self. É ela que faz que não sejamos um robô, uma máquina manipulável. Podemos guiar a imaginação e conduzir a criatividade por meio dessa consciência. Para compreendermos o que é a dor, o sofrimento, e também o prazer das outras pessoas, precisamos antes ter uma ideia de quem somos. E a consciência self é fundamental para que possamos respeitar os outros.
Como o estudo da consciência pode melhorar a vida das pessoas?
Grande parte do sofrimento humano é causado por conflitos das pessoas consigo mesmas. Quando conhecemos mais a natureza biológica do homem, encaramos esses problemas com outro olhar. Se conhecemos os mecanismos que accionam a ansiedade, a tristeza e a alegria, podemos entender melhor como cada pessoa é e evitar certos problemas. Pense nos conflitos religiosos, políticos e de grupos sociais. É claro que há bases económicas para eles – mas acredito que a compreensão das emoções pode ajudar a mudar a maneira pela qual as pessoas tentam resolver essas disputas. Entender a tendência para a violência, para a competição ou o funcionamento do medo é fundamental para o autocontrole. Posso soar optimista, mas acredito que, quando admitirmos que nossa razão é influenciada por essas emoções, o mundo poderá tornar-se melhor.
A compreensão detalhada da consciência não pode nos tornar mais céticos – ao descobrirmos, por exemplo, que há, no cérebro, uma região responsável pelo amor ou outra pela fé?
Mesmo que venhamos a compreender a mente com mais profundidade, será muito difícil desvendar mistérios como a origem do universo ou o que faz com que nos apaixonemos por outra pessoa. É possível que nunca cheguemos a desvendar essas questões – talvez nosso cérebro não tenha capacidade para compreender certos enigmas...
Como a crença em Deus...
Exactamente. Acho improvável que a neurociência consiga, um dia, apresentar razões para que as pessoas tenham ou deixem de ter fé numa inteligência superior. Elas podem até deixar de acreditar em milagres. Mas a ciência não tem como concluir que o Criador existe ou deixa de existir. A fé e a origem do universo não são problemas científicos passageiros. Mesmo assim, o conhecimento da mente pode mudar a forma como nos relacionamos com a vida. As pessoas tendem a aceitar a morte em função da complexidade do universo. Acho que deveria ser o contrário: constatando como a vida é frágil, podemos dar mais importância a ela e trabalhar para que seja a melhor possível enquanto dure.
A cada ano surgem um novo antidepressivo e drogas que provocam emoções artificiais. Você acredita que, no futuro, teremos uma droga que possa acabar com as emoções negativas?
Acho que sim. É uma questão importante, que precisaremos discutir cada vez mais. Imagine uma superpopulação tomando Prozac diariamente. Esse grupo de pessoas alteraria um sistema natural e poderia causar diversos problemas – é claro que alguns problemas seriam resolvidos, mas as consequências da proliferação dessa medicação poderiam levar à ruína de uma sociedade. Tem que haver mais investigação sobre como essas drogas serão usadas. É claro que as pessoas deprimidas devem ser tratadas, mas pode ser um erro tomar o medicamento apenas para inibir a timidez e impulsionar a vida social. A ciência precisa trazer mais informações para que esses temas não sejam discutidos pela simples opinião ou intuição de algumas pessoas.
Chegaremos, um dia, a manipular tão bem as áreas do cérebro que poderemos reproduzir com uma pílula a sensação de voar ou de passear numa montanha russa?
É bem provável que isso seja possível. E, sem dúvida, para a sociedade esse será um assunto tão polêmico quanto o da clonagem genética. Vamos ter que decidir o que deve e não deve ser permitido – exatamente como na regulamentação da indústria do cinema e da televisão. Há um ponto em que tanto a criação artística quanto a científica precisam ser filtradas pela sociedade. Mas não podemos deixar que um burocrata decida isso. Quanto mais informações forem divulgadas no futuro, inclusive por meio desta revista, mais condições a sociedade terá para tomar suas decisões.
Que outro tipo de realidade virtual poderá ser criada, no futuro, manipulando o cérebro?
Prefiro não especular, tudo ainda não passa de teoria.
O estudo da consciência humana é um campo da ciência à espera de um novo Newton?
O problema da consciência é um tema complexo, que tem sido mal abordado. É evidente que é necessário avançar muito mais. Acho que meu livro O Mistério da Consciência traz alguns avanços importantes sobre o assunto, mas não devemos ter a ingenuidade de acreditar que tudo está resolvido. Há imensos problemas à espera de mais investigação e trabalho. Nos próximos dez ou 20 anos, talvez seja possível resolver boa parte deles.
Como escrever sobre assuntos tão complexos para o público leigo?
Os temas sobre os quais escrevo são importantes demais para ficarem restritos aos cientistas. Escrever sobre o pâncreas ou o fígado pode ser atraente apenas para os médicos, mas o público tem interesse quando falamos da mente, do pensamento, da emoção e do sentimento. É fantástico o retorno que tenho recebido dos leitores dos meus livros em todo o mundo. Interessados em arte, literatura e cinema dizem que essa pesquisa os ajuda a compreender melhor o que fazem nas suas próprias áreas.
In SuperInteressante
Dois grandes enigmas do Conhecimento!
A revista francesa SCIENCE & VIVRE (número de Agosto 2008) seleccionou 10 grandes mistérios da Ciência e do Conhecimento Humano. Entre eles, destacam-se A CONSCIÊNCIA (como é que o nosso cérebro a produz) e A FORMAÇÃO DAS IDEIAS (como é que o nosso cérebro constrói o pensamento criativo). Não longe destes dois temas que apaixonam e envolvem milhares de cientistas, psicólogos, filósofos e outros estudiosos, a revista elegeu também: O que havia antes do Universo nascer? Como apareceu a vida? Existem outros universos? Quando é que de um óvulo se faz um ser vivo? O nosso mundo é quântico? Qual é a natureza do Tempo? O que é que realmente nos distingue dos outros animais (já que partilhamos com o chimpanzés 99% dos genes)? Como é que vai acabar o Universo?
Perguntas curiosas, sendo que algumas são inquietantes. O não sabermos as respostas levanta receios, gera polémica entre os diferentes teóricos. Mas, ao mesmo tempo, desafia a nossa inteligência, provoca a nossa sede de saber e gera vocações científicas entre os mais jovens.
Frank Tallis, psicólogo clínico in Hidden Minds - A History of the Unconscious
A medicina integral
A Medicina Integral acompanha o novo (e necessário) paradigma da saúde. Aquela tem de tornar-se holística, perceber o doente na sua totalidade e ajudá-lo a corrigir a desarmonia que está subjacente à causa das enfermidades.A saúde e a doença não acontecem simplesmente. Ambas são processos activos induzidos pela harmonia ou desarmonia interior, influenciados pelo estado de consciência e a capacidade ou incapacidade das pessoas tirarem partido da experiência.
O corpo deixa de ser visto como uma "máquina" para ser entendido como um organismo, um sistema dinâmico, um contexto, um campo de energia dentro de outros campos. A dor e a doença deixam de ser vistas como desarranjos ou anomalias para serem percebidas como informações sobre conflitos e desarmonias.
Assim, o dualismo corpo-mente esfuma-se. A mente deixa de ser um factor secundário para ser um factor primário e de igual valor em qualquer doença. O doente é um ser humano e, por conseguinte, não deve ficar reduzido a um número afixado nos exames, nos processos médicos e nos serviços de saúde. Os aspectos qualitativos são superiores aos quantitativos. Os relatos subjectivos dos pacientes e as intuições dos médicos devem ser levados em consideração.
O bem-estar, a saúde, emana de uma matriz corpo/mente, reflectindo harmonia psicológica e somática.
Finalmente, toda a cura é auto-cura. Significa isto que a cura vem sempre como um resultado directo do doente perceber-se a si mesmo como um todo, o que implicará uma mudança de pensamento, ou seja, uma transformação de atitudes, valores e convicções.
Francis Crik (1916/2004)
Físico e Bioquímico. Co-vencedor do Prémio Nobel da Medicina e Fisiologa (1962)
Ken Wilber, fundador da Psicologia Integral
O conceito da Psicologia Integral deve-se a Ken Wilber. A sua obra concentra-se basicamente na integração de todas as áreas do conhecimento (ciência, filosofia, arte, ética e espiritualidade).A preocupação em unir ciência e religião apoia-se em sua própria experiência e na de diversos místicos de todas as grandes tradições de sabedoria, tanto ocidentais quanto orientais; aliado à sua releitura transpessoal da psicologia analítica de Carl Gustav Jung.
Em 1998, Wilber fundou o Instituto Integral (Integral Institute), organização que reúne os inúmeros pensamentos nas questões sobre a ciência e a sociedade de maneira integral. Ele tem sido pioneiro no desenvolvimento da Psicologia Integral, da Política Integral - e, mais recentemente, de uma nova Espiritualidade Integral.
No dia 4 de Janeiro de 1997, o jornal alemão Die Welt declarou Wilber como "o maior pensador no campo da evolução da consciência". Segundo muitos formadores de opinião em filosofia, psicologia e espiritualidade, Ken Wilber seria o maior filósofo da actualidade, envolvido no desenvolvimento das estruturas e idéias que, quando reconhecidos e aplicados, tendem a ampliar a futura visão de mundo, ciência e religião em um novo paradigma "integral".
Desde recentemente, Wilber dedica-se à prospecção de uma "Teoria de Tudo", um metamodelo do conhecimento já produzido que possa unificar e estruturar a visão do que chama de Kosmos: físico, vida, mente, alma e espírito.
No livro "Consciência Cósmica" (Kosmic Consciousness), Wilber começou o que ele se intitula: contador de histórias e criador de mapas. As suas histórias falam sobre questões universais e seus mapas integram várias perspectivas do cosmos.
Em "Uma Teoria de Tudo" (A Theory of Everything), texto introdutório ao paradigma integral, Wilber sintetiza suas teorias e ferramentas, e propõe uma visão integral - e unificável -
para os negócios, a política, a ciência e a espiritualidade.Em "Espiritualidade Integral", Wilber expande sua visão Integral para formular uma nova teoria para a espiritualidade, propondo um papel inovador para a religião, transcendência e a sua aplicação no quotidiano.
Bibliografia em português:
O Paradigma Holográfico e Outros Paradoxos (Cultrix, 1991)
O Espectro da Consciência (Cultrix, 1996)
Consciência Sem Fronteiras (Cultrix, 1989)
Um Deus Social (Cultrix, 1987)
Transformações da Consciência (Cultrix, 1999)
O Projeto Atman: Uma Visão Transpessoal do Desenvolvimento Humano (Cultrix, 2000)
O Olho do Espírito (Cultrix, 2001)
A União da Alma e dos Sentidos (Cultrix, 2001)
Uma Breve História do Universo (Nova Era, 2001)
Uma Breve História de Tudo (Via Óptima, 2002)
Psicologia Integral: Consciência, Espírito, Psicologia, Terapia (Cultrix, 2002)
Uma Teoria de Tudo (Cultrix, 2003)
Boomerite: Um Romance que Tornará Você Livre (Madras, 2005)
Uma Teoria de Tudo (Oficina do Livro, 2005)
Ken Wilber em Diálogo (Madras, 2006)
Espiritualidade Integral (Aleph, 2007)
Fases de Ken Wilber
O próprio filósofo define a sua obra em 5 fases:
Na Fase 1, (-1979), se identifica com a psicologia junguiana e a filosofia romântica, vendo o crescimento espiritual como um retorno ao Self.
Na Fase 2, de 1980 a 1982, adentra a psicologia do desenvolvimento, aprofunda seus estudos da consciência, agregando filosofias ocidentais e orientais. Nesta fase, o crescimento espiritual é fruto do processo de amadurecimento.
Na Fase 3, de 1983 a 1987, compreende o amadurecimento como um processo complexo, onde é necessário um equilíbrio do Self entre o desenvolvimento cognitivo, emocional, social e espiritual; dentre outros. De 1987 a 1995, praticamente não publica, devido a questões pessoais - em especial a grave doença de sua esposa, falecida em 1989.
Na Fase 4, de 1995 a 2001, sua teoria ganha dimensões socioculturais, através da teoria dos quadrantes (eu, isto, nós, istos; intencional, neurológico, cultural e socioeconômico), a aplicação dos mesmos a todo o conhecimento humano, sua interdependência, e o "fundamentalismo" de visões (filosofia, ciências, espiritualidade, psicologia, etc) baseadas em apenas um destes aspectos.
Na Fase 5, "pós-metafísica" (2001-), Wilber parte para uma visão mais integral de sua teoria. A questão transcendente permanece, mas há uma compreensão de todos os níveis da Espiral Dinâmica, inclusive os "mundanos"; em lugar de sua abordagem metafísica (evolução/involução) anterior. Seu próprio modelo passa a ter uma abrangência que se estende a todos os quadrantes, tipos, níveis, linhas e estados previamente definidos em sua prospecção do conhecimento humano.
ConceitosNo modelo de Ken Wilber, a consciência organiza-se em esferas evolutivas que sucessivamente incluem e transcendem a camada anterior. A vida inclui e transcende a organização física e molecular onde ocorre; a mente, por sua vez, inclui e transcende a vida; a alma inclui e transcende a mente; e o espírito, a alma.
A: Matéria / Física - A
B: Vida / Biologia - A+B
C: Mente / Psicologia - A+B+C
D: Alma (sutil) / Teologia - A+B+C+D
E: Espírito (causal) / Misticismo - A+B+C+D+E
Esta idéia que qualquer "todo" conhecido é apenas um "holon" (parte de um "todo maior", conceito holístico emprestado de Arthur Koestler), e aplica-se também átomos, moléculas e organismos; letras, palavras, frases, páginas, livros e idéias; e à própria consciência humana, um holon que se manifesta em quatro quadrantes: eu, isto, nós, "istos" (isto coletivo).
Por este modelo, a negação das camadas vistas como "inferiores" (comum a vários sistemas filosóficos e religiosos), seria um equívoco; assim como o descarte, por parte de alguns campos da ciência, de toda esfera que transcenda os limites de sua visão.
A visão científica em geral considera um "cosmos" da realidade física como "todo", e não um holon. Isso implica a visão de que apenas a física e causalidade seriam as ciências perfeitas e reais. Wilber propõe a retomada do conceito grego de "Kosmos", que inclui não só a matéria, mas também a vida, a mente, a alma e o espírito. Assim, uma visão materialista encontraria explicações para o domínio de seu "olho do físico", criando teorias para o cosmos. Já uma visão de Kosmos implicaria o desenvolvimento de um "Olho do Espírito", uma vez que causas oriundas de um holon transcendente pareceriam inexplicáveis - ou factos acausais, na visão de Carl G. Jung - se considerado apenas a esfera anterior.
Wilber também expande o conceito da Dinâmica da Espiral de Clare W. Graves, um modelo dos estágios do desenvolvimento humano, aplicável a vários campos, de acordo com uma visão do mundo mais ou menos individual, familiar, coletiva ou holismoholística.
Segundo o filósofo, a maioria das visões espirituais e psicológicas incorrem numa visão dualista (racional ou espiritual, ciência ou religião, ego ou essência do ser). Para Wilber, contudo, há um modelo de três camadas (pré-pessoal, pessoal e transpessoal; mítico, religioso ou místico; corpo, ego ou Ser; instinto, intelecto ou intuição; natureza, cultura ou Kosmos), e há um falácia ao incluirmos as experiências pré-pessoais na coluna "espiritual" do modelo anterior. Assim, sua análise discerne, no dito espiritual, aquilo que é "transpessoal" e evolutivo daquilo que seria "pré-pessoal".
Wilber propõe dez níveis e quatro quadrantes que, se combinados, geram a abordagem "todos os níveis, todos os quadrantes" de sua Filosofia Integral.
SUPERIOR ESQUERDO: Interior-Individual, Eu. Psicologia do Desenvolvimento.
SUPERIOR DIREITO: Exterior-Individual, Isto. Neurologia, Ciência Cognitiva.
INFERIOR ESQUERDO: Interior-Coletivo, Nós. Psicologia cultural, antropologia.
INFERIOR DIREITO: Exterior-Coletivo, Istos. Sociologia.
Cada um destes quadrantes apresenta 10 estágios ou níveis, sub-divididos em pré-pessoais, pessoais ou transpessoais:
TRANSPESSOAL: Causal, Sutil e Psíquico
PESSOAL: Centáurico/Visão Lógica, Formal (formop) e Operacional Concreto (conop)
PRÉ-PESSOAL: Rep-ment, Fantásmico-emocional, Sensório-físico e Indiferenciado ou matriz primária.
(fontes: livros de Ken Wilber e internet)
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